E no principio criou-se a Figura…
(Ou ainda: encontros, descobertas, surpresas e acasos)
 
O pedido a neutralidade em quase todos os sentidos, foi o comando inicial dado pela Bela,
para que déssemos início a construção daquilo que depois chamaríamos de FIGURA.
Aquilo que não se conhecia, que nem ainda era.
 
E começaram: roupas espalhadas pelo chão, adereços, cores, pedaços de tecidos, fivelas, vestidos, velas, novelos, fotos, corda, chapéus, óculos, saias, meias, sapatos, escritos, máscara, maquiagens, tubo, capacete….
Dava-se assim a grande surpresa de todos. Interprete virando FIGURA, e o novo-desconhecido surgindo.
 
Aqui faço um paralelo com o que discutimos ontem (06/12)
 – E quanto a nós, relatores? Meros escreventes? Passivos d’Ela?
    Ou também a construir e buscar algo?
 
Logo percebi, que não era apenas observar – e sim, ver e sentir ali, a transmutação dos companheiros; a criação no amontoado de coisas; sentidos que chegavam, palavras e pensamentos que começavam a pipocar em cada um ali, disponíveis ao trabalho.
 
Para nós, relatores, havia também revelações, de novas sensações, idéias, algumas coisas começavam a ter sentido. Nós, co-criadores de algo, começávamos a ser contaminados pela criação que fazia brotar a vida da FIGURA. Já era possível ver no olhar dela, as mudanças da (des)construção do ser, olhando, tocando, vendo na outra figura, talvez o rascunho de si.
 
No exercício proposto, acordado e dividido por todos – seriamos o olhar de fora,
O sentir e olhar a distância entre FIGURA e as situações que a vivência em rua nos traria.
 
Pois bem, voltemos a ela – a FIGURA.
A que acompanho já não é mais Diana Pinzigher; é agora um ser de vestido longo e branco,
fitas vermelhas como se fossem cabelos, uma bolsa e uma chapéu, ambos vermelho.
Com a boca tapada e calada por uma fita. Tem um olhar mais sobressaltado, mais saído, mais vivo,
que descobre pouco a pouco. A FIGURA começa então a tomar forma, corpo, olho, 
mas ainda é casca, ainda é oco, ainda é criatura sendo criada.
 
Bixiga, casarão, major Diogo, yayá, entorno familiar, e ainda sim, novo pra ela.
Estamos na rua. Logo na saída do casarão, vejo que a FIGURA começa a estabelecer um jogo,
que nem a mesma conhece; é como se também pedisse ajuda, como se ainda
precisasse ser amparada para andar pelas ruas do centro, também povoada por seres.
Sentia como se ela ainda não se conhecesse, como se não soubesse a potência que tinha sua imagem,
o quanto era estranho aos olhos dos outros vê-la assim: Despida da forma humana, sendo apenas ela, ser estranho.
 
Havia uma quantidade grande de desconhecidos nas ruas:
Moradores, curiosos, traficantes, crianças, bêbados, crentes, mendigos, cachorros, motoristas e outros, outros, outros…Os encontros e as trocas eram das mais inusitadas possíveis; alguns identificavam como teatro vendo o bando de figuras passar; outros iam mais além, queriam conversar com ela, perguntavam coisas, davam ou queriam tirar-lhe algo, e surpresos alguns a seguiam – uma outra figura, até cerveja bebeu.
Notava que ‘minha’ FIGURA, com os outros seres do grupo não tinha interesse em se relacionar, afinal todas as histórias, olhares, curiosidades, xingos e afagos tinha só pra si.
 
No trajeto, saído do casarão da major Diogo, 91, passando pelas ruas Maria José, conselheiro ramalho,
Manuel Dutra, rui Barbosa, treze de maio, santo Antônio, era visível e sentido a receptividade das pessoas,
tanto pro bem quanto pro mal, não havia exceção, a FIGURA era sim, notada na rua, e isso lhe dava força, poder, audácia; a troca com o outro lhe dava novas possibilidades de se e estar ali.
 
A FIGURA deu pétalas de si e de suas flores; deu olhares; acarinhou, riu sem sorriso,
Foi questionada, negada, recebida e mandada embora. Dos velhos as crianças, todos pelo menos a notaram. Se a alguém disse alguma coisa, acho que não, pois palavra falada não tinha.
 
Não havia trabalho intencional, a troca se dava no sentido de ser FIGURA.
O diálogo com a sociedade da rua foi estabelecido assim:
Estando na rua, pisando na rua, ouvindo a rua, entregando e recebendo da rua.
Como disse um figura aí…talvez o verbo da rua, seja o sentir…
 
Figura: Diana Pinzigher
Relator: Rafael Ferro
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