O ator…a figura…e o espaço
por Jandilson Vieira
 
A Rua Major Diogo foi o ponto de partida do “eu – figura” (Vestes: vestido preto, camiseta manga longa preta, pedaços de tecidos grudados na camiseta, chapéu cheio de botões, uma bolsa vermelha cheia de novelos de lã, pedaços e rolo de fita e quatro óculos). Iniciei a minha caminhada observando o mercado ECON sem a intenção de fazer algum gesto para chamar a atenção, as pessoas não olhavam.
 
À frente, num salão de cabeleireiros, fico na porta de vidro olhando as mobílias sem dirigir o olhar para alguma das pessoas que estavam ali. Logo em seguida a dona do salão chega e pergunta se aquilo é teatro, fujo do assunto e faço uma pergunta obvia: – Você corta cabelo? E ela Responde: Somente feminino!
 
Continuando a caminhada eu sentia uma imensa necessidade de procurar coisas na bolsa e dar funcionalidade a algumas das coisas que estavam dentro, atravessei a rua e me deparei com uma viela de casas cujo o número era 338 ( Neste momento tive vontade de somar 3 + 3 + 8 = 14. Para chegar em um outro numero fiz a somatória de 1 + 4 =5. O numero cinco naquele momento parecia não fazer sentido, mas durante o trajeto eu ia contando as coisas que eu via).
 
Durante o caminho eu amarrava fitas em arvores e postes que somatizados dariam 5. Havia pouquíssimas arvores naquele entorno e muitos postes de luz. Havia preocupação da figura em demarcar os lugares por onde passava.
 
Tentei atravessar a rua 5 vezes, os motoristas não paravam mesmo vendo que pessoas queriam atravessar. Quando cheguei do outro lado da rua me deparei com varias crianças e adolescentes atrás de um cercado de arame, elas xingavam e jogavam coisas, me afastei.
 
Segui a diante e me deparei com vários moradores de rua, um deles me chamou a atenção por que estava com o pé esquerdo enfaixado (estava inchado e parecia ser trombose) ele estava sentado no chão conversando com uma mulher, quando interrompi a conversa e comecei a falar com ele:
 
Eu – Figura: – O Sr fica sempre aqui?
 
Morador de Rua: Sim!
 
Eu – Figura: (Vejo que há uma caixa da bicicleta CALOI, que supostamente ele usaria para se cobrir durante a noite e a perna enfaixada e pergunto) – O Sr Caiu de bicicleta?
 
Morador de Rua: (Olha a perna e a caixa da bicicleta que esta ao lado e começa a rir.
 
(Continuei observando a conversa deste senhor com uma moça e logo fui embora)
 
 
 
Ao chegar na esquina havia uma senhora baixinha sentada na mureta, tive a impressão que ela estava passando mal e comecei a dialogar com ela.
 
Eu- figura: A senhora está bem?
 
Senhora: Sim! (silêncio)
 
Eu- figura: A senhora está esperando alguém?
 
Senhora: Não! É que eu fui à casa de uma amiga e ela já tinha saído….foi para a escola e só volta as 22:30.
 
Eu- figura: (tirei um novelo de lã da bolsa e ela me pergunta)
 
Senhora: Você faz tricô?
 
Eu- figura: Não!
 
Senhora: Crochê?
 
Eu- Figura: Não! ( E começo a desenrolar o novelo) Gosto mesmo é de desenrolar novelos de lã.
 
Senhora: Para quê?
 
Eu- figura: Gosto de chegar no fim das coisas, quero achar a ponta….o fim. Desenrolo, desenrolo, desenrolo…acho o final e depois começo a enrolar tudo de novo para achar o começo.
 
Senhora: ( Ri não acreditando no que ouvia).
 
Depois apareceu um senhor bêbado perguntando se eu tinha alguma coisa a ver com religião. Eu disse que não e o ignorei.
 
Teve um momento de um senhor na janela que estava olhando a rua, olhei para ele e ele estava assustado, não queria muita conversa. Falei para ele que ele era um homem de sorte, por ter uma janela daquele tamanho e uma noite calorenta. Ele somente balançava a cabeça concordando.
 
Estava do outro lado da rua quando o meu relator indica com a cabeça para eu passar no salão de cabeleireiro. Havia uma janela imensa aberta, permaneci em frente olhando fixamente a televisão. A cabeleireira que estava concentrada no afazer da escova demorou para ver que eu estava ali. Foi parando devagar e se dirigiu até a janela, perguntou: – A senhora quer alguma coisa?  Eu dizia que não queria incomodar somente queria assistir televisão. Desconcertada ela não sabia se ficava na janela ou se ia cortar o cabelo, olhava para os lados como se estivesse procurando alguém. Retirei um pedaço de fita e deixei na janela, ela olhou com um olhar de recusa e eu disse que aquela fita traria sorte.
 
No farol fechado eu estendia uma imensa fita laranja e ficava observando o bonequinho verde do farol de pedestre. Quando o sinal abria eu saia correndo e começava a enrolar a fita, fiz isso 3 vezes e cansei.
 
As pessoas me olhavam com estranheza, parei num bar onde tinha 2 moças tomando cerveja. Uma das moças era muito sorridente e a outra emburrada. Tinham acabado de chegar de bicicleta que estava à frente delas. Amarrei uma fita em cada bicicleta solicitei que tomassem cuidado, se beber não dirija, empurre a bicicleta até em casa.
 
Deitei na calçada e varias pessoas começaram a se perguntar se era um homem ou uma mulher. Diziam: É um homem, olha a mão dele. Outros: É uma mulher, ta de saia. Uma das pessoas ameaçou pegar água para jogar em mim. Escutei a figura da Aline falando: – Pega água e joga nele.
 
Um pouco mais a frente com o rolo de lã na mão, peço ajuda para algumas pessoas que segurem o fio. Quatro pessoas seguraram o fio e quando eu estava distante pedi que soltassem e enrolei o novelo desfeito.
 
Entrego um elástico para um casal que estava em frente a um bar chamado PIU PIU. Eles me perguntam o que eu sou, eu não respondo. Pergunto para eles se preferem o caminho mais longo ou o caminho mais curto com sofrimento. Respondem-me que o mais longo, viver é sofrer. Questionam o meu nome, relacionando a figura que acabara de passar que se chamava VAZIO. Perguntei que nome me daria: (A mulher) – LOTAÇÂO.
 
Quando parecia que a trajetória já havia terminado por que as ruas estavam vazias. Vi uma placa: GREVE DE PADEIROS. Neste momento eu achei que ali era uma brincadeira, eu nunca ouvi falar de greve de padeiro, era algo revelador. Perguntei para o segurança o que significava aquilo. Ele dizia que os padeiros entraram em greve. Questiono que está fazendo pão?
 
Segurança: – Ninguém! Fala ali com o dono da padaria que está no caixa.
 
Eu – Figura: (Me dirigi até o Dono da padaria) Senhor que está fazendo pão?
 
Dono da padaria: – Ninguém, os padeiros estão em greve.
 
Eu- figura: Mas como estão de greve meu senhor, como uma padaria pode ficar sem pão?
 
Dono da padaria: Não pergunte para mim, pergunte para os padeiros que estão ai em frente.
 
Quando olho para frente vejo uma kombi branca com duas caixa de som na parte de cima e duas cadeiras dentro, uma faixa de GREVE e dois padeiros – um muito sorridente e outro muito sério . Entrei dentro da kombi e questionei os padeiros para saber o que estava acontecendo.
 
Padeiro sério: Estamos em greve por que o dono da padaria não quer aumentar o nosso salário.
 
Eu- figura: Mas todos os padeiros estão em greve?
 
Padeiro sério: A maioria das padarias já aumentaram o salário, somente aqui que está com essa palhaçada.
 
Eu- figura: (Falando para o padeiro sorridente) Por que você tanto ri? Seu salário ta baixo e o senhor ainda tem motivo para rir.
 
Eu não sabia se ele estava rindo da minha figura ou do fato de estar numa Kombi de greve.
 
Sai indignado com a situação, nunca tinha visto uma greve de padeiro, onde eu moro nunca faltou pão. Eu não tinha noção nem de onde eu estava de tão abismado com aquela situação. Eu ia questionando as pessoas na rua sobre a greve do padeiro.
 
Uma experiência reveladora que acontece quando você está aberto para ouvir, sentir, vivenciar. As coisas se desvelam com o mínimo proposto. Houve momentos que eu tinha a necessidade de querer ser observado, mas acho que as coisas se revelavam justamente no momento em que não havia a preocupação de FAZER.
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