Escritos de uma pessoa que assistiu MARULHO no domingo (12/06/2011)

Eu ia dizer que fazia tempo que não me sentia assim, tocada. Mas não é questão de tempo. Ou é? Afinal, tudo é feito de tempo.
Foi uma peça feita com tanto cuidado, com tanta delicadeza, com tanto carinho… Era amor em concentração maior que álcool no absinto. E entorpecia tanto quanto. Me fisgou com vara curta e a todos nós com rede. Os pescadores eram atores de uma beleza indizível, que nos olhavam nos olhos, nos roubavam o ar, nos davam a vida. Tiveram a preocupação de ficar com o ouvido no casco do barco, para jogar a rede só quando ouvissem os peixes passando por baixo.
Essa peça é de uma tamanha VERDADE, que não parece algo criado, pensado anteriormente. Nesses tempos de produção em massa, estranhamos algo tão honesto, tão puro na sua intenção de nos fazer vivenciarmos a nós mesmos, entrando no outro. Lembrei da frase de Saramago no “Conto da ilha desconhecida” que cabe muito aqui: “se não sais de ti, não chegas a saber quem és”.
Foram as pupilas dilatadas do início ao fim. A música como uma oração, fazendo com que nos reorganizássemos por dentro, seguindo o movimento do canto e da batida. A beleza nos gestos, nas luzes, nas sombras, nas cores, nos corpos, no cuidado.
O primeiro personagem falou a respeito de ressentir. Re-sentir. Sentir de novo a areia nos meus pés. Sentir um canto que desconhecia e pude ter o prazer de descobrir. Uma cidadezinha no interior de Minas Gerais, feita de crendices, visagens, ingenuidade, honra, velas, rendas, fitas, botões, uma igrejinha, santos, um falar arrastado e VERDADEIRO. Não sei em que parte da peça ouvi isso e nem sei se chegou a ser dito, mas imaginei ser Minas Gerais. Uma cidade litorânea em Minas Gerais. Mas não me causou estranhamento que fosse litorânea, foi completamente verossímil. Nessa cidade havia também uma estação de trem. Receio que seu único destino fosse Macondo, a cidade imaginária de Gabriel García Márquez, em “Cem anos de solidão”.
O personagem que mais me pescou foi um homem travestido de mulher, com voz doce e andar cambaleante. Trazia consigo a sabedoria que vem do sujo, do feio. Coincidentemente, ontem mesmo eu havia escrito no meu caderninho a seguinte nota: “ver beleza no feio”, para que me recordasse. Mais no final da peça esse mesmo personagem disse que somente os artistas seriam capazes de ver beleza naquela figura que escorria batom vermelho do canto da boca. A princípio pensei que fosse o vinho ou sangue – seu próprio – que portava engarrafado. Eu por dentro gritava: “Eu vejo beleza em você! Eu só consigo ver beleza em você.” Fiquei então entusiasmada com isso de ser artista. E pensando no compromisso que isso traz. Artista ainda não sei de que arte. Mas sei que arte é o alimento mais nutritivo que ingiro e o produto que eu tenho mais prazer em gerar.
Havia também uma mulher de olhos claros, pele pintada de branco e vestida de carteiro, que nos traduzia e anunciava a VERDADE.
Não era muito nítido para mim, mas agora foi escancarado: a verdadeira arte, a genuína, nos remexe por dentro com o intuito de nos fazer criar. Li há pouco em “O Banquete”, no discurso de Sócrates, que o amor está diretamente ligado ao movimento de criação.
Agora eu fui transportada para tantos lugares queridos! Lugares de vento calmo e quente, de carinho e amizade. De misticismo e de magia. De comunhão. A sensação que veio foi de que juntos somos capazes de criar um movimento que transforme.
Minha alma não foi só tocada, mas abraçada, afagada.
Sinto profunda gratidão.

Leticia Sodré

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