Se eu fosse você, iria conferir a peça em questão e tiraria minhas conclusões… Afinal, será que esse cara tem razão? E a quem importa tudo isso? Essa é a questão. À quem?

O universo de Rosa, por Márquez e Jorge Amado

14 de fevereiro de 2011

César Augusto – O Estado de S.Paulo

Marulho: O Caminho do Rio é um espetáculo concebido pelo Grupo Redimunho, que vem construindo sua história no teatro com obras nascidas do processo de imersão em determinado universo. Desta vez, o grupo foi a Cordisburgo beber mais uma vez na fonte de Guimarães Rosa, mas o itinerário, que incluiu ainda Andrequicé, De Janeiro e o Rio São Francisco, lhes deu também, segundo eles mesmos, Gabriel García Márquez e Jorge Amado.

Para construir a dramaturgia do espetáculo, o autor e diretor Rudifran Pompeu optou por cenas episódicas, alinhavadas pelo mensageiro/carteiro que ora remetem ora são transposições diretas dos autores citados. O mensageiro conduz a plateia a diferentes lugares. São três mudanças de ambiente e o deslocamento não chega a cansar o público, trazendo até um respiro importante para as mais de duas horas de peça. Nesse campo, a luz de Osvaldo Gazotti ajuda na composição dos ambientes. Embora o argumento do texto entrecruze dois discursos, o dos artistas e o dos personagens, a ideia parece ser uma só: a do ser humano que busca sentido para sua existência. O ator fracassado, o personagem redivivo Aristides, o carteiro, o cego oracular, o delegado João, o travesti – todos querem saber quem são ou, antes, o que são. Nesse sentido, há certo parentesco com alguns personagens de Rosa, mas enquanto este faz Riobaldo passar por um caminho de individuação, a dramaturgia do espetáculo parece não pular no abismo dos arquétipos, deixando os personagens na planície do prosaico. Nem mesmo as sugestões do fantástico, apreendidas de Márquez, conseguiram fazer com que muitas cenas deixassem de parecer um melodrama novelesco.

Com relação às interpretações, elas acompanham o caminho escolhido pelo autor e diretor. Os atores tentam se aproximar do universo arquetípico de Guimarães, do fantástico de Márquez e do despudoramento de Jorge Amado (quem sabe não fosse preciso pensar essa falta de pudor não só do ponto de vista do nu físico e sim do nu moral?), mas isso não ocorre efetivamente. Talvez porque, e é preciso cuidado para dizer isso, a prosódia tenha sido trabalhada numa linha de naturalidade, que iguala as caracterizações dos atores e os coloca no mundo cotidiano. Partindo do princípio de que a proposta do espetáculo é narrar e mostrar à plateia os universos estudados e pesquisados, a interpretação, em vez de aproximar o público do transcendente, do maravilhoso, do amoral, da metáfora e da criação estética, afasta-o, mantendo-o no fenômeno do prosaico. Será que nessa proposta uma criança, tida como uma entidade viva ou um oráculo, pode falar com a mesma prosódia de um carteiro de Cordisburgo? Será que um ente da mitologia indígena pode falar da mesma maneira que um delegado? Será possível afirmar que uma pessoa fale igual à outra ou respire da mesma forma? Se a maneira de falar pode revelar o caráter de uma pessoa, sua conduta moral, seu movimento psíquico, enfim, suas idiossincrasias, é preciso pensar sobre isso no teatro, da mesma maneira que um pintor escolhe se vai usar vermelho ou amarelo, porque a fala, assim como a tinta, é signo.

Talvez o Redimunho não tenha conseguido, desta vez, transpor suas vicissitudes artísticas. Talvez isso importe menos do que reerguer um espaço teatral e dar continuidade a uma investigação artística, mas será que se contentar com isso é o bastante?
MARULHO: O CAMINHO DO RIO

Espaço Redimunho. Rua Álvaro de Carvalho, 75, Consolação, tel. 3101-9645. Sáb., às 21 h; dom., às 19 h. R$ 30. Até 24/6.

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